Tuesday, May 24, 2005

O Peru de Natal

O dia D chegou, é hora de encarar a realidade e caminhar até um lugar conhecido e temido por todos nós. Dispo-me de minhas pequenas e frágeis lembranças, que tive - por um curto tempo – guardado, do lugar onde nasci, dos companheiros que cresci, da família que vivi.
Sei que minha vida se destina a um friorento matadouro e que de lá, congelado, passarei a morar em enormes frigoríficos até que depois, sem nenhuma cerimônia, logo no dia em que se celebra o nascimento de Jesus, me colocarão para assar num forno em altíssima temperatura e em seguida, me servirão como prato principal num banquete digno dos deuses. Mamãe me alertara de todo esse processo num de nossos passeios pelas granjas do criadouro.
Preciso elaborar um plano para escapar ileso, antes de ser devorado por toda uma família que só me deixará os ossinhos para contar história, isso se não jogarem os ossinhos de minhas pequenas coxinhas aos cachorros, ou pior do que isso, seria sentir meus ossos da sobre-coxa serem sugados com todo apetite por um tio gordo. Não ter tempo de pular da mesa e escapar correndo das facas e serra elétrica e principalmente das bocas famintas da família é o meu maior medo. Isso tudo acontecerá daqui a alguns dias. Enquanto estiver congelado, terei tempo bastante para arquitetar um plano de fuga.
- Hummm que cheiro delicioso mamãe.
- É o peru, Juca.
Acho que já estou pronto para ser devorado. Preciso pensar rápido. Aposto que já estão de olho em minha carne tenra, aqui, boiada na gordura de minha própria pele. Não sabia que era assim, mamãe não me contou essa parte da gordura e dos temperos que liberam esse cheiro delicioso, que até em mim, dão água na boca. Ao mesmo tempo que me encontro nervoso e inquieto me sinto lisonjeado em exalar tal fragrância...
Finjo estar morto em meio ao falatório geral, percebo que não sou o único a não querer se entregar ao que o destino programou. Penso em alguma maneira de sair daqui correndo, mas quanto mais penso e lamento estar aqui, mais me sinto impotente, distante e isolado de minha vontade.
A única forma de sair daqui de uma maneira vitoriosa e dominante é me aceitar como convidado de honra, parte importante desse jantar de Natal.
O que tenho a fazer e o que me resta a fazer é esperar que essa família saboreie - da melhor maneira possível - os pedaços de minha carne tão aguardada e desejada por todos.

Redação - Português III - 2005

1 Comments:

At 5:59 PM, Anonymous Anonymous said...

Perú de natal, ou uma pessoa como eu, tanto faz...dá no mesmo.

 

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