Friday, December 29, 2006

Queria fazer disso aqui, um terreno alto e amplo com vista para o mar, brisa fresca no final de tarde cor de abóbora. Queria sempre estar por perto, vigiar o seu jeito de atravessar a rua, sentir de longe o cheiro vindo do hálito refrescante de quem mascara uma goma verde dentro da boca rubra. Queria prolongar as frases, ao invés de dizer por dizer parecendo não saber o que se está a expectorar e assim, contaminar menos o ar. Queria saber encontrar o espaço certeiro, para as vírgulas entre as palavras corretas e no ínfimo espaço do papel saber colocá-las ali, com toda delicadeza e precisão. Queria que o ano começasse de novo em apenas uma fração inflacionada de segundo agora, pronto, já foi. Queria pressionar menos o backspace no teclado do meu computador. Queria, queria, queria... Queria o ar, o mar, o excesso sugado do sonho, estar perdido entre nuvens, entre gotas de chuva misturadas em frascos, borrifadas, sintonizadas, ligadas a acertar a pele. Queria às vezes, me esquecer de mim mesmo, viver outro, estar noutro, noutra. Queria e muito, saber tirar de fortes cordas de aço ou de cromados teclados, um som lírico porém, viril, de raio, trovão, alucinação, límpido como deveria ser o ar. Queria poder enxergar mais a poesia que cerca as pequenas coisas, reparar os gestos do dia a dia. Queria educar meus olhos e ouvidos a ponto de me esquecer em mim mesmo. Queria ter o sexo dia sim, dia não em diferentes linguagens e formatos dentro do quarto quente, encoberto por colchas frias a deslizar em minhas mãos. Queria lançar o olhar lentamente e não alcançar nada, somente a escuridão.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home